O objetivo do Modos de Ver é favorecer uma troca de experiências e olhares sobre a fotografia, entre o fotógrafo convidado e o público. Além disso, sem dúvidas, o projeto busca estreitar as relações entre pessoas que possuem os sentidos voltados para a imagem e a arte de criá-la e que desejam compartilhar entre si o que vêem e como vêem o mundo através de lentes fotográficas. Por isso, pensando nesse enlace de idéias em prol da arte visual, resolvemos fazer uma prévia da palestra O fotógrafo por ele mesmo, e apresentar, de forma mais profunda e transparente, a fotógrafa Cristina Cenciarelli, nossa convidada da 3ª edição do Modos de Ver. Segue abaixo uma entrevista feita pela equipe do projeto com a fotógrafa.
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MV Quando começou a fotografar?
CC Comecei a fotografar com 19-20 anos e profissionalmente com 29 anos.
MV Que papel a fotografia ocupa na sua vida e na sociedade?
CC Fotografar, para mim, é uma emoção. É um modo de ver e de viver. É uma maneira de se conhecer e se re-conhecer através de uma expressão, não importa se artística ou não. É uma maneira de entender a vida, os pensamentos dos outros, através de um momento, um olhar que, sempre, tem que ser respeitoso. Fotografar é uma maneira de ser, porque a atenção e o olhar diferente permanecem sempre também quando não estou com a máquina fotográfica. A fotografia na sociedade desenvolveu um papel sempre mais respeitável: de simples “substitutivo” da pintura nos retratos e na paisagem, e se transformou em um testemunho mais e mais atento e crítico. Penso no papel importante da fotografia durante a Guerra do Vietnã, por exemplo, no jornalismo de crônica e reportagem. E agora na fotografia como arte, como forma artística e de expressão.
MV O que para você merece ser fotografado?
CC. Tudo merece ser fotografado!!! Nenhum sujeito é menos importante do que o outro. Um rosto, mas também uma sombra, uma criança abandonada, mas também uma janela. O importante, o fundamental é a emoção que a imagem transmite, a mensagem, a arte ou, simplesmente, a beleza.
MV A fotografia é valorizada como arte no Brasil?
CC. Não conheço muito sobre esse assunto, ainda não conheço a realidade em termos de apoio e seriedade das instituições brasileiras. Posso responder que os fotógrafos brasileiros estão entre os melhores do mundo, são “maestri” nessa arte e que são bem conhecidos no exterior.
Acho maravilhoso e muito corajoso o trabalho que a Casa da Photographia está desenvolvendo. Ajudando quem ama a fotografia, os fotógrafos mais jovens e os profissionais: é como uma porta bem aberta que permite a todo mundo entrar e conhecer essa arte.
Acho maravilhoso e muito corajoso o trabalho que a Casa da Photographia está desenvolvendo. Ajudando quem ama a fotografia, os fotógrafos mais jovens e os profissionais: é como uma porta bem aberta que permite a todo mundo entrar e conhecer essa arte.
MV Qual o objetivo do seu trabalho fotográfico em Boipeba?
CC Boipeba para mim é como um mistério, um lugar sem tempo que merece e precisa ser protegido, não somente sua natureza maravilhosa, mas principalmente as suas culturas e tradições. Eu aprendi a viver uma vida diferente olhando e compartilhando com os nativos da ilha, pessoas que tem todo o meu respeito. Eu quero mostrar essas vidas, como são duras e doces ao mesmo tempo, quero dar corpo a esses heróis tranqüilos e reservados que todos os dias lutam. O meu trabalho fotográfico em Boipeba é composto de momentos essenciais de vida cotidiana, de trabalhos, de retratos, de emoções e de tradições afro-brasileiras.
Mas é, também, complementar as atividades de “Eu lembro”, filmagens sobre as memórias dos velhos da ilha. Outro projeto paralelo é a associação cultural e a biblioteca, que fundei com outras três pessoas (dois nativos), dedicado à parteira mais antiga de Boipeba, analfabeta.
Mas é, também, complementar as atividades de “Eu lembro”, filmagens sobre as memórias dos velhos da ilha. Outro projeto paralelo é a associação cultural e a biblioteca, que fundei com outras três pessoas (dois nativos), dedicado à parteira mais antiga de Boipeba, analfabeta.
MV Seu trabalho em Boipeba pode ser classificado como fotografia documental etnográfica?
CC É muito difícil responder. A minha formação profissional foi na publicidade. Quando cheguei em Boipeba não tinha idéia de um projeto fotográfico específico, não sabia que tipo de relacionamento eu poderia construir com a ilha, não conhecia ainda a riqueza escondida na ilha. Tudo nasceu aos poucos, conhecendo e aprendendo, encontrando e estudando. Me apaixonando. O meu encontro com o mundo do candomblé, por exemplo, foi uma descoberta e nunca teria pensado de me envolver tão profundamente, nunca teria pensando de ser acolhida com esse carinho e respeito. Tudo foi inevitável e natural. O trabalho que estou desenvolvendo com o terreiro de Boipeba é mais que uma documentação para mostrar fora daqui. Para eles, ver as cerimônias nas fotos é reconhecer o valor do candomblé, é também um “se re-conhecer” e se ver pela primeira vez em momentos cheios de significados cultural, religioso e espiritual. É um trabalho etnográfico? É um trabalho psicológico? Ou social? Não sei responder com certeza.
MV O que precisa para ser um bom fotógrafo?
CC Amo muito o fotógrafo Cartier-Bresson, que diz que, no momento definitivo do click, tem que ter na mesma linha o cérebro, os olhos e o coração, para capturar a essência da imagem. Saber de técnica, para usá–la; ter um olhar diferente para oferecer à imagem um significado diferente; usar o coração, o sentimento, o respeito, a emoção, a sensibilidade para dar vida a uma coisa, a imagem, que pode ser apenas um pedaço de papel.
Repórter: Flavia Vasconcelos














